terça-feira, 6 de novembro de 2012


Dos cadernos de formação


Eliminando as imagens distorcidas sobre Jesus
Durante muito tempo, a catequese deixou de questionar as imagens de Deus presentes na cabeça das pessoas. Muitos acreditam num Jesus super-homem, que não tem nada a ver conosco e que resolve as coisas num passe de mágica. Facilmente a imagem que as crianças trazem, desde suas famílias, é de um Jesus diferente delas, bem semelhante aos super-heróis, um ser espiritual, desligado de todas as coisas do mundo, meio angélico, que resolve as coisas num segundo e que não sente dor, com sentimentos totalmente diferentes, pensamentos totalmente desvinculados do seu meio social. Há até quem diga que Jesus não sofreu no caminho da cruz porque Ele era Deus e os pregos não doeram em suas mãos e pés. Ora, Jesus não veio representar um teatro. Ele não fingiu
ser humano, nem camuflou sua divindade num rostinho humano, à moda da sociedade que cria mutantes com poderes especiais, como vemos em filmes e novelas.
Para salvar a divindade de Jesus muitos assassinam a sua humanidade. E dizem facilmente:
“Jesus sabia disso e daquilo, Ele era Deus...”. Jesus foi cem por cento Deus e cem por cento homem, diferente dos que acreditam que ele tenha sido cinqüenta por cento Deus e cinqüenta por cento homem. Sua humanidade não interferiu nem prejudicou sua divindade e vice-versa. Leonardo Boff explica: "Tão humano assim, só poderia ser divino". Nesta linha, o Documento de Aparecida também explicita: “Nossa fé proclama que ‘Jesus é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem’” (DA 392).
Por detrás da concepção de que Jesus não foi verdadeiramente homem, existe uma
Cristologia falsa, descomprometida e muito perigosa para a evangelização, principalmente na nossa realidade brasileira. Se cremos num Jesus diferente dos humanos, podemos facilmente nos esquivar do seu seguimento, da sua proposta e das suas atitudes e discursos; podemos facilmente dizer que Jesus fez o que fez, disse o que disse, porque Ele era diferente, era somente Deus, um ser com outra identidade que está acima de nós humanos. Podemos pensar que nós, pobres seres humanos, não podemos nem pensar em ter atitudes como as que Ele teve porque somos diferentes dele em
identidade. Somos humanos e ele não era. Concretamente, é preciso deixar claro que Jesus pensava a vida como as pessoas pensam, brincava, quando criança, como as crianças brincam; comia, dormia, tinha necessidades biológicas e psicológicas como todas as pessoas têm, e nem por isso deixou de ser Filho de Deus. Jesus foi normal. Somos nós que, muitas vezes, por ignorância, distorcemos a sua imagem. Em Jesus tudo o que é autenticamente humano aparece: a ira e alegria, bondade e dureza, amizade e indignação. Participou de todos os nossos sentimentos e fatos comuns da vida como a
fome, sede, cansaço, frio e calor, a vida insegura e sem teto, as lágrimas (Lc 19,41), a tristeza e o temor (Mt 4,1-11). É um homem que experimenta a crise, a angústia, o desespero, a esperança... ao longo do viver. Experimenta os limites do viver. Ama a vida, o mundo, as pessoas. Tem sentimentos profundos: é fiel, tem senso de humor, é sensato e tranqüilo (Lc 20,20-26; 4,28-30), é sentimental (Lc 7,11-15) é emotivo (Jo 11,15-17). E firme e agressivo(Mt 10,34; 11,12), justo e misericordioso. Viveu o pavor e a angústia da morte violenta.

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